O terreno, vizinho à faixa de terra não edificável por onde passam linhas de alta tensão, está há pelo menos 30 anos abandonado, segundo moradores mais antigos da área. Parte do terreno situa-se onde passava uma antiga linha férrea, logo tudo indica tratar-se de área devoluta. Os ocupantes querem torná-lo uma área útil, que sirva de abrigo e moradia para quem necessita, e não como cemitério clandestino e área de “desova” eventual de cadáveres, como acontece atualmente.
Contudo, foi só os sem-teto entrarem no terreno, para logo aparecerem supostos “donos” do mesmo. Uma certa imobiliária Brasil Central, com sede no Rio, apareceu com documentos duvidosos tentando “provar” a propriedade e dizendo que os ocupantes tinham que se retirar. Fizeram uma proposta muito estranha, de dividir o terreno com os sem-teto, o que aumentou as desconfianças de que se trata de uma fraude. Qual é o proprietário legal de uma área que, diante de uma ocupação, ao invés de acionar a justiça e pedir reintegração de posse, propõe partilhar a área com os ocupantes? Tudo indica que a tal imobiliária não passa de uma fachada para grileiros que querem se aproveitar do movimento dos sem-teto para abocanhar parte da terra. Eles começaram a cercar o terreno, atividade que os sem-teto procuram interromper com a pressão do povo, mas ainda têm que enfrentar as ameaças armadas.
Um dos “sócios” da suposta imobiliária é o sargento da Polícia Militar Almeida (parece que seu nome completo é Ubiratan Almeida Brito), lotado na DPO de Campo Belo, conjunto construído recentemente na mesma região, sobre o qual os moradores tanto do Campo Belo como do conjunto Dom Bosco têm diversas denúncias de arbitrariedades. O “sargento Almeida”, que tem posses e negócios incompatíveis com seu salário na PM, têm ameaçado os sem-teto desde o primeiro dia da ocupação. Sob seu comando, policiais militares derrubaram e puseram fogo nos barracos que os ocupantes haviam montado. Só ficou um barracão que os sem-teto têm utilizado para preparar as refeições coletivas e para as aulas e atividades que são feitas com as crianças. O Almeida mantém três seguranças na área desde a ocupação, que circulam armados e ameaçam os ocupantes a toda hora. Há uma semana atrás, ocupantes de um carro branco e uma moto pararam à noite a uma certa distância do barracão e fizeram disparos de pistola e metralhadora em sua direção durante mais de uma hora, sem nenhuma intervenção da polícia.
Ontem, na véspera da ocupação completar um mês, a comissão do acampamento conseguiu a certidão de ônus reais da área que prova que ela não têm dono, por orientação do Iterj (Instituto de Terras do Rio de Janeiro) e da Defensoria Pública. Provavelmente informado que sua fraude está sendo desmascarada, o sargento Almeida apareceu no terreno acompanhado do soldado PM Sales (também da DPO do Campo Belo) querendo saber quais haviam sido os sem-teto que haviam mandado parar a construção da cerca. Confrontados com os sem-teto que diziam que não tinha essa de cerca pois a terra era do povo e havia sido dada por Deus, o soldado Sales exaltou-se disse que não ia ficar assim, que de noite ninguém segurava ela porque ele tinha um carro branco e uma moto e vinha ali a hora que quisesse.
Sentindo a ameaça, os sem-teto resolveram não passar a noite no barracão, o que foi certo, porque por volta das 18:00 três homens encapuzados e um carro com os faróis acesos apareceram no terreno e vasculharam o barracão. Pouco depois, um companheiro morador do Campo Belo que vem ajudando na organização da ocupação foi abordado por seis encapuzados num carro na estrada que liga o Campo Belo à área rural de Campo Alegre, onde tinha ido visitar um amigo. Os homens ameaçaram ele e a um outro companheiro de morte caso eles não abandonassem o movimento.
É preciso ressaltar que as ameaças e a conduta do sargento Almeida já foram denunciadas na Corregedoria Geral da PM mas esta não tomou nenhuma atitude até agora. Estamos divulgando esses fatos e pedindo providência por parte da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, do comando da Polícia Militar e do próprio governo estadual, pois a qualquer hora algo mais grave pode acontecer.
Aos companheiros dos movimentos populares, do movimento estudantil e sindical e de toda a sociedade pedimos apoio e solidariedade, para que as ameaças que os sem-teto de Nova Iguaçu estão sofrendo sejam denunciadas e para que as autoridades sejam pressionadas a tomarem providências.
Os ocupantes estão em situação precária e precisam também de apoio material: alimentos, agasalhos, material para poderem erguer novos barracos. Todos que puderem ajudar podem entrar em contato pelos e-mail
ccp@alternex.com.br,
frentedelutapopular@bol.com.br, ou pelos telefones 9977-4916 (Maurício), 9405-4534 (Oséas), 2281-8162 (Marlene). Quinta-feira, 19/06, haverá assembléia da ocupação no terreno e é importante a presença de companheira(o)s em apoio, da imprensa e se possível das autoridades, omissas até o momento.




