A revista Ocas [www.ocas.org.br] número 53 (edição maio/junho) traz na capa uma reportagem sobre os impactos sociais dos XV Jogos Pan-Americanos, que serão realizados no Rio de Janeiro, de 13 a 29 de julho. A chamada é "Por trás do Pan - Rio capacita jovens pobres para trabalhar durante os jogos, mas 542 famílias lutam contra a desapropriação enquanto assistem à construção de um condomínio de luxo".

Dentro da revista, a matéria está dividida em duas partes. A primeira ("O Pan que exclui") mostra a tentativa da Prefeitura de desapropriar a comunidade do Canal do Anil, próximo à Vila do Pan. A segunda parte ("O Pan que inclui"), foca em um dos projetos destinados à inclusão social nas comunidades pobres na região do circuito do Pan, o Curso de Guias Cívicos.

A reportagem mostra que a Prefeitura está ameaçando de remoção 542 famílias do Canal do Anil sob a alegação de que o local é considerado de risco, conforme notificou a Secretaria Municipal do Habitat. Segundo a secretaria, as famílias serão indenizadas e, no local, está prevista a construção de uma "Via Canal".

A revista Ocas esteve no Canal do Anil e conversou com o presidente da Associação de Moradores e três mulheres do conselho criado para lutar contra a desapropriação. Vale a pena reproduzir parte do depoimento de uma das conselheiras:

- A partir do momento em que tiram sua casa, tira-se tudo. Você é tratada como um ser bruto, é completamente inferiorizada. Foi muito desanimador. Eles vao fazer uma varredura direta dos pobres. Minha filha tem oito anos e me disse que o Pan era "aqueles apartamentos ali que vão tirar todo mundo daqui". Ela disse que um coleguinha da escola falou que aquilo ali é prédio de rico, e a gente tem que sair porque somos pobres. (...) Essa limpeza social faz com que os verdadeiros atletas desse Pan sejam os moradores, a população pobre. Porque a cada dia é uma vitória continuar imune às atrocidades da prefeitura - diz Elizabeth Silva Araújo.

A Vila do Pan terá capacidade para 8 mil pessoas, com 1.480 apartamentos, distribuídos em 17 prédios. A proposta, como em toda cidade-sede dos Jogos Pan-Americanos, é que a vila seja utilizada, após o evento, para diminuir o déficit habitacional, que no Estado do RIo chega a 293.848 moradias, num total de quase 1,2 milhão de pessoas. A vila foi viabilizada com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), mas atenderá apenas ao mercado imobiliário de luxo, pois os apartamentos serão negociados por preços a partir de R$ 180 mil cada.

INCLUSÃO
A parte final da reportagem fala sobre o projeto Curso de Guias Cívicos, um dos oito programas de inclusão da Senasp (Secretaria de Segurança Pública). A iniciativa pretende formar dez mil jovens entre 14 e 24 anos, moradores de 149 comunidades na área do Pan, para trabalhar como "promotores de normas de convivência cidadã". Os jovens recebem aulas de cidadania, turismo e língua estrangeira por quatro meses, recebendo uma bolsa auxílio de R$ 175, para trabalhar durante julho e agosto no Pan.

Outros dois projetos da Senasp destinados aos moradores de comunidades pobres são a "Olimpíada Carioca" - com corrida rústica, vôlei e basquete mistos, atletismo, futebol e capoeira - e o Programa de Atenção e Proteção às Crianças provenientes da região do circuito do Pan-Americano. A revista destacou, no entanto, que nenhum dos projetos está destinado à população adulta em situação de rua. Ao contrário, a população de rua já começou a ser retirada na Barra da Tijuca e em Jacarepaguá, segundo informações do Blog da Rua [ http://blogdarua.blogspot.com].

A revista "Ocas - saindo das ruas" é vendida por pessoas em situação de rua pelo preço de R$ 3,00, dos quais R$ 2,00 ficam para os vendedores.