Os mensageiros catastróficos do Planeta exclamam: - Não tem jeito, a humanidade está perdida! Achamos que o derretimento das geleiras é um problema só dos pingüins e esquimós. Planejamos transposição de rios como uma simples operação geográfica. Derrubamos florestas tropicais sem a menor preocupação, para satisfação única do poder econômico. Extinguimos várias espécies, numa escala nunca vista antes, acreditando que elas não fazem a menor falta. Sabemos que morrem no mundo, aproximadamente, vinte mil pessoas por dia, vítimas da fome, do frio, do medo, do maltrato físico e emocional, das doenças, do subjugo, e não nos indignamos com isso. Estamos totalmente cegos, não percebemos a destruição que provocamos à nossa volta; perdemos a sensibilidade!

Em meio aos catastróficos surgem os bem intencionados. A ONU institui programas de combate à fome, à violência, à desigualdade social; os países ricos enviam aos países pobres, trilhões de dólares do seu excedente, para programas de educação, saúde, saneamento; os centros de pesquisas intensificam a busca da cura de doenças modernas; as entidades ?do bem? se proliferam em exagero; infinitas ações individuais ecoam de canto a canto.

Parece que todos sabem qual é o mal que aflige o mundo e sabem também o que fazer para saná-la, mas protestos e boas intenções não significam transformações. E continuamos impotentes a perguntar: - Se existem recursos, tecnologia, programas, então por que prosseguimos exterminando a raça humana de maneira tão vil? Por que optamos pela catástrofe? Por que a devastação é maior que a preservação ou a contenção? Por que a corrupção é maior que a correção? Por que a desonestidade dos que desviam recursos é maior do que a lisura dos bem intencionados? Que valores nos faltam, para que surjam mudanças a curto prazo?

Neste ponto o autor Daniel Quinn me chama a atenção: ?... se o mundo for salvo, o será por pessoas de cabeça mudada, pessoas com uma nova visão. Não será salvo por pessoas com visão antiga e programas novos. ? Visão é fluxo. Não precisa ser incentivada nem programada.

A visão cultural de hoje é: o que é bom para os humanos é bom para todo o mundo. Nós inventamos e decidimos qual o único jeito certo de viver para a humanidade, as plantas, os animais, os minerais. Por isso dizimamos outros jeitos de viver, mesmo os que deram certo e funcionaram durante milhares e milhares de anos para outras comunidades, inclusive humanas. Colocamos o ser humano com o único que merece a graça e o poder da criação. Da árvore que colhemos um fruto ninguém mais se alimenta, declaramos guerra aos insetos, pássaros, ervas e a quem mais ouse disputar nosso alimento. Queremos todos os recursos da Terra e impedimos que outras espécies tenham acesso a eles. Assim, eliminamos a possibilidade de competição natural, destruímos a diversidade e o conhecimento do que deu certo para tantas vidas.

Este é o equívoco da nossa visão cultural. Desvalorizamos o que dá certo para a perenizar a vida e valorizamos o que dá certo para aumentar a produção das nossas coisas. Pensamos que controlamos as leis da natureza, mas estamos tão submetidos a ela quanto as outras espécies, o que vale para uma vale para todas. Só há vida onde existe alimento, só existe alimento onde há equilíbrio. E só há equilíbrio na diversidade, tanto natural quanto cultural.

Nossa cultura não representa a única forma de viver, mas talvez.represente a única que não esteja dando certo. Então, não é a humanidade que está perdida. Nós humanos não somos assim. Nós ficamos assim quando nos submetemos a essa cultura megalomaníaca, da acumulação, do desperdício, da competição sem limites, do salve-se quem puder, da arrogância moralista, da falta de amor.

E se não somos assim podemos ter outra visão. Podemos ser humildes, reconhecer que o mundo não é nosso, nós é que somos do mundo. Podemos entender que nenhuma espécie vive sozinha e que não há uma espécie mais importante que outra, quando se trata da sustentabilidade da teia da vida.