Encontramos uma grande difusão em número e qualidade de idéias, reflexões, críticas e denuncias contra esta forma que anula a vida e destrói o nosso mundo. Porém, palavras, idéias, práticas, incentivos, críticas e visões sobre a construção de autonomia são pouco manifestadas.

Isto deve mudar, e parece que esta mudando. De forma bem tímida ainda, porém crescente, está havendo uma "procura" da autonomia e nesse processo, é importante cada vez mais levantarmos esta questão: "por que devemos buscar autonomia?"

Algumas respostas possíveis podem ser esboçadas. Busca-se autonomia não somente por sermos contra o Estado e a sociedade alienante do trabalho e consumo, busca-se autonomia pela própria necessidade de sermos responsáveis pelo nosso destino e possuir o controle do nosso dia-a-dia. De termos a consciência do impacto de nossas escolhas e do estilo de vida que adotamos. Busca-se autonomia porque a nossa autonomia significa a autonomia dos outros. O que estimula a interdependência natural, ao contrário desta convivência forçada e sem sentido na qual somos submetidos numa sociedade de massas.

Um questionamento que pode estimular uma sensibilidade para a questão da autonomia é o acesso aos direitos básicos para uma vida íntegra: a moradia, acesso à água, ao alimento, ao convívio com os queridos. Será que é justo ter que PAGAR por algo que todas as espécies da terra possuem gratuitamente? Como tudo isso começou? Sempre foi assim? Perguntas que podem colocar a tona nosso passado recente, em que vivíamos numa sociedade de abundância e plenitude, porque vivíamos em comunhão com o mundo natural numa espécie de anarquia-primitiva. Originalmente não somos seres que vivem em guerra com os outros e com o mundo natural. Este é o mito da revolução agrícola e o mito hobbesiano.

Não somos aliens. Os valores, as incoerências, a insustentabilidade, as ilusões, os absurdos e estupidez deste sistema devem ser denunciados a ponto de não terem mais sustentação.

Na vida civilizada se trabalha de 6 a 10 horas/dia no mínimo para PAGAR a sobrevivência e as necessidades manipuladas pela sociedade do consumo. Por outro lado, na vida selvagem (podemos dizer que selvagem é sinônimo de livre) os povos tribais caçadores-coletores não precisam de mais que 3 horas/dia para garantir suas necessidades.

E de forma muito diferente do homem civilizado, as 3h/dia de trabalho do coletor na verdade são 3h/dia de jogo, aventura, diversão, aprendizado, convivência, comunhão com a natureza, espiritualidade, canto, sensualidade e plenitude. Elementos que se prolongam ao decorrer do dia, pois não há separações na vida selvagem como existe na vida civilizada, hora de trabalhar, hora de dormir, hora de estudar, hora de se divertir (se é que nessas horas os civilizados realmente fazem isso numa sociedade da privação, do medo, da insônia, do tédio e do previsível)

O mito hobbesiano caiu, é preciso avisar, gritar, cantar, espalhar este fogo selvagem.