Temos muito a reaprender e a refletir a partir da vida dos nossos irmãos brincalhões menos famosos, os Bonobos*.
A critica à monogamia compulsória, a negação do corpo é tão ou mais polêmica e difícil de se encarar do que apontar os equívocos do modo de produção capitalista e da civilização nos seus aspectos econômicos, sociais e políticos.
Mas por que? Arrisco dizer que a maior parte das pessoas incluindo aí os revolucionários e progressistas, militantes de esquerda , intelectuais e demais dissidentes é sexualmente conservador/a.
A relação de posse a necessidade de exclusividade é ou não uma das premissas da civilização e do patriarcado? O que não é o ciúme se não um grito de dor diante da possibilidade da perda da posse da exclusividade ?
Reconheço que uma relação afetivo/sexual duradoura favorece uma profunda intimidade inigualável se comparada a encontros casuais, mas isso não deveria implicar no direito de posse.
O exemplo de Sartre e Simone de Beauvoir e tantos outros representa o típico relacionamento aberto que se aproxima de uma prática verdadeiramente libertária.
É a sempre presente busca permanente de segurança que nos atrapalha; o mito do retorno ao útero que parecemos perseguir as custas de uma maior liberdade.
A idéia de lar; conceito que metaforicamente relembra a situação do útero materno e na pratica personifica a família nuclear indissolúvel traduzindo-se na dimensão do público e do privado; levando à submissão da mulher enquanto rainha do lar por muitos e muitos anos.
É inegável a contribuição substancial do cristianismo e de outras religiões para a nossa moral conservadora e em muitos casos hipócrita.
O corpo, o sexo, foi colocado como um tabu, tido como algo feio e inferior, profano quando comparado à alma e o intelecto que são puros, divinos e superiores.
O exemplo clássico é o mito da Virgem Maria que contrapõe o arquétipo da mãe dos nossos filhos, virgem pura e santa de um lado, ao da puta (onde putas são todas as outras mulheres que não nossa mãe, esposa e irmãs).
Um processo que ao longo de anos nos levou a uma variação de extremos: de um lado a permissividade, pornografia e do outro o puritanismo.
O capital encarrega-se de agravar a alienação dos corpos mediante a monetarização das relações afetivo sexuais que implicam quase sempre no casamento monogâmico garantindo a exclusividade, mesmo que hipocritamente da boca pra fora: ?o que os olhos não vêem o coração não sente?.
O fenômeno crescente das casas de swing (poligamia vigiada e consentida tipicamente de classe média) escancara a real violência à natureza humana que representa a monogamia.
Há de se cuidar também que por parte do capital ocorre a transformação do corpo em mercadoria onde a massificação e a promoção de padrões de beleza e de comportamento são ditados pela moda, mídia e por especialistas em relação pessoal que nada tem a ver com a realidade das pessoas com isso forma-se mitos como o de que o brasileiro é um/a atleta sexual, liberal e ultra satisfeito.
A questão de como lidamos com o nosso corpo e o modo como interagimos afetiva e sexualmente com nossos semelhantes não ocupam, infelizmente, a ordem de prioridade nas discussões acadêmicas e intelectuais. É mais fácil nos informarmos na mídia tipicamente burguesa sobre o tema. Vide Marie Claire, Época, Nova...
Nos meios eruditos discute-se à exaustão temas como a guerra do Iraque, o aquecimento global, a corrupção no governo, mas o corpo... Ah, o corpo...
Acabei de chegar de um encontro de educação ambiental em que a dimensão da ecologia pessoal na qual inclui-se a relação com o corpo foi pouco ou talvez nada debatida.
As interações entre as pessoas ocorrem num nível muito mais intelectual do que sensorial e quando ocorre o beijo e o toque raramente surge de forma espontânea.
É de se lamentar que especialmente entre a juventude a interação seja em boa parte dos casos mediada e facilitada pelo uso de álcool ou drogas.
Os bem jovens têm caminhado para um perigoso extremo em que podemos relacionar o ?ficar? deles com a cultura do descartável onde o outro é apenas mais uma boca que se beija na contabilidade do mais viril e machão da turma exacerbando assim a competitividade em detrimento da brincadeira e da real descoberta.
Isso revela uma repressão sexual, uma atrofia emocional e uma falta de espontaneidade perigosas que não permitem o fluir gostoso de uma interatividade completa.
Eu afirmo pela minha experiência em viagens com grupos de estudantes e acadêmicos por diversos estados brasileiros que nas festinhas muito se insinua um clima de liberdade sexual, mas muito pouco se pratica...
A começar pela sensualidade da dança e das roupas principalmente das garotas, mas a quantidade de latinhas de cerveja e de bitucas de cigarros "beijadas", conforme meu amigo Carlos brilhantemente observou pela primeira vez, denunciam o contrário e são inversamente proporcionais as bocas e braços que se entrelaçam numa noite típica de festa.
O Carlos costuma juntar as bitucas e latinhas num canto e provocar as pessoas ?Eu não vi tudo isso de beijo aqui ontem a noite?. rsss beijar latinha sim...
Mas mesmo na hora H a moral sexual dominante moralmente conservadora reaparece porque a mulher deixa-se equiparar em boa parte dos casos a um troféu a ser conquistado mediante a sua infantilizarão por meio do "xaveco" (historinhas contadas ao pé do ouvido); nada mais reacionário e machista.
Não haverá mudança radical no nosso modo de vida se não questionarmos o dogma da família nuclear monogâmica.
Imagino que temos muito a ganhar se atingirmos o mesmo nível de desapego que buscamos na relação com as posses materiais , dinheiro e etc na nossa vida afetiva, sexual e amorosa.
Parafraseando Gaiarsa, o corpo é o nosso maior parque de diversões e fazer um bom uso dessa sensibilidade e da nova sociabilidade que se construiria a partir dessa relação é algo a ser buscado e que deverá resgatar nossa espontaneidade e ludicidade tão caras ao mundo frio, previsível, mecânico, economicista e hipócrita que tanto criticamos.
Fantástica a dinâmica social dos Bonobos.
Enquanto isso como diz o psicólogo reichiano José Ângelo Gaiarsa (fã ardoroso dos Bonobos):
"Nós nos tratamos como se fossemos todos leprosos"
José Ângelo Gaiarsa
Com tesão, amor e vida em abundância para todos!!!
*Diferenças entre os bonobos e os chimpanzés (traduzido por Janos Biro):
Bonobos:
Vivem em áreas de abundância de comida viajam em grupos maiores.
Há um número reduzido de violência entre os machos, entre machos e fêmeas e entre grupos vizinhos.
Não há evidência de estupro, infanticídio ou coerção contra as fêmeas.
O macho superior e fêmea superior são iguais em poder.
As fêmeas cooperam com outras fêmeas, formando coalizões para proteção e apoio mútuo.
Os machos nunca cooperam entre si para defender ou atacar as fêmeas.
Mesmo o macho mais forte pode ser vencido pelo grupo de fêmeas.
As fêmeas têm amizades que incluem masturbação mútua e lesbianismo como forma de aliança.
Os machos também se masturbam mutuamente, e não há competição por fêmeas em período fértil.
Bonobos fazem sexo para fazer amizade, e podem fazer sexo várias vezes por dia (embora as fêmeas só procriem de 6 em 6 anos).
Chimpanzés:
Vivem em grupos menores onde a vivem onde comida é escassa.
Grupos vizinhos entram em guerra, geralmente procurando machos isolados para bater até matar.
Quando jovens machos ficam adultos irão bater nas fêmeas para mantê-las submissas.
Fêmeas preferem acasalar com machos violentos, porque estes podem oferecer maior proteção, mesmo que sejam violentadas de vez em quando.
A fêmeas estabelecem hierarquias, e seus filhotes nascerão na posição social da mãe (podem subir ou descer de posição durante a vida).
Sexo é trocado por comida, favores e posições sociais.
Machos formam alianças para ganhar e manter status, geralmente com violência.
A caça é comum, geralmente mostrando um apetite sanguinário.
(Tem maior natalidade, e maior mortalidade)
