Um grupo de cientistas e pesquisadores colocou cinco macacos numa jaula. No meio, uma escada e sobre ela um cacho de bananas.
Quando um macaco subia a escada para pegar as bananas, um jato de água fria era jogado nos que estavam no chão. Depois de um certo tempo, quando um macaco subia a escada para pegar as bananas, os outros que estavam no chão o pegavam e enchiam de pancada. Com mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas.
Então substituíram um dos macacos por um novo. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo retirado pelos outros que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não subia mais a escada.
Um segundo substituto foi colocado na jaula e o mesmo ocorreu com este, tendo o primeiro substituto participado com entusiasmo na surra ao novato.
Um terceiro foi trocado e o mesmo ocorreu. Um quarto e afinal o último dos cinco integrantes iniciais foi substituído. Os pesquisadores então tinham na jaula um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse pegar as bananas.
Se fosse possível perguntar a algum deles porque eles batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza, dentre as respostas, a mais freqüente seria:
-- Não sei, mas as coisas sempre foram assim por aqui.
O noticiário internacional foi recentemente dominado pelo processo movido por vários países europeus para processar o General Pinochet e pelo seu retorno ao Chile, por alguns considerado humilhante, por outros triunfante. Pinochet praticou as maiores atrocidades quando detendo o poder total no Chile, agindo coerentemente com alguns princípios por ele considerados sagrados.
As atrocidades cometidas pelos nazistas quando estavam no poder na Alemanha, sob o regime de Adolf Hitler, ainda estão vivas na nossa memória. Ele cumpria o que considerava sua missão de proteger a pureza da raça contra o perigo que representava o diferente, particularmente os judeus, os homossexuais, os ciganos e outros tantos diferentes, e a ameaça do comunismo ao sistema econômico vigente. Estava agindo em coerência com seu credo, exposto no Mein Kampf.
Trata-se de indivíduos que, coerentes com seus credos, praticam ações condenáveis. Melhor dizendo, ordenam essas ações. Quem as executa?
Numa instigante fábula, Ismael, um gorila sábio, diz ao homem:
?Ontem você disse que tem a impressão de ser um cativo. E isso porque sofre uma enorme pressão para ocupar um lugar, qualquer que seja, na história que sua cultura está encenando no mundo. Essa pressão é exercida de todas as maneiras, em todos os níveis,... Seu lugar é aqui, participando dessa história, fazendo parte da engrenagem e, como recompensa, sendo alimentado". [1]
A fábula de Ismael gira em torno daquilo que se incorporou à cultura como normal. É assim porque assim deve ser. Nessa normalidade cabe a cada um de nós um comportamento esperado, a encenação de um papel que nos é dado pela complexidade da vida em comunidade. O cumprimento do papel é esperado e aceito como comportamento normal. O comportamento não esperado é anormal, é reprimido e punido. O anormal, em suas várias formas, é marginalizado e excluído. [2]
Os chamados psicóticos ou psicopatas, que têm comportamento agressivo contra outros indivíduos, contra fatos naturais e contra eles mesmos, são considerados anormais. Nessas suas manifestações eles são notados pela sociedade, que procura cuidá-los, algumas vezes com a intenção de reintegrá-los, outras vezes de excluí-los. [3]
No entanto, os indivíduos que se comportam na sociedade aceitando como normal às coisas como elas são, pois assim devem ser, passam tranqüilos, são considerados e muitas vezes até aplaudidos. São os que aceitam, sem qualquer reflexão crítica, o seu papel na encenação a que me referi acima.
Grandes males vêm sendo perpetrados ao longo da história da humanidade por indivíduos que executam, obedientemente e sem qualquer crítica, o que lhes é ordenado, muitas vezes apenas sugerido. São os chamados normopatas, sem dúvida causadores de maiores danos à coletividade que os psicopatas.
A normopatia está associada à aceitação de uma ordem natural, ditada por sabedoria divina, e isto é marcante na cultura ocidental.
O grande pensador Sri Aurobindo (1872-1950) escreveu, numa das mais interessantes apreciações da cultura ocidental:
?Para a filosofia ocidental uma crença intelectual fixa é a parte mais importante de um culto, é a essência de seu significado e o que o distingue dos outros. Assim são que as crenças formuladas fazem verdadeira ou falsa uma religião [uma teoria, uma filosofia, uma ciência], de acordo com sua concordância ou não com o credo de seus críticos.?
O comportamento e o conhecimento se constroem sobre crenças intelectuais basilares, por muitos chamadas paradigmas. Comportar-se e conhecer são identificados com o fazer e o saber. Na filosofia ocidental, que culmina com a chamada filosofia moderna, saber e fazer comparecem como ações distintas. O saber está associado ao espiritual, à mente, ao intelectual, ao colarinho branco. O fazer está associado ao material, ao corpo, ao manual, ao colarinho azul. As conseqüências dessa dicotomia e a valorização do saber sobre o fazer são evidentes na organização da sociedade moderna. Na economia e na própria burocracia. Todo um processo de exclusão e de hierarquização está ancorado nessa dicotomia. Quem sabe manda e o fazer é interpretado como um ato de obediência.
Qual a intensidade da obediência? Ao discutir o comportamento humano e a subordinação do indivíduo à autoridade, Leibniz refere-se à Igreja Romana e diz: ?esta necessidade [de obedecer à Igreja Romana] exige apenas uma docilidade razoável, não obrigando em absoluto ao assentimento, conforme os ensinamentos dos mais sábios doutores dessa Igreja". [5]
Saber e fazer estão intimamente associados. O fazer consciente é resultado do saber, assim como o saber resulta da reflexão sobre o fazer. Conhecimento/saber e comportamento/fazer guardam uma relação que poderíamos chamar simbiótica. A aquisição da consciência é a efetivação dessa simbiose pelo ser humano.
Será que outras espécies vivas têm consciência de seus atos?
A primeira questão que se nos apresenta é se há crenças intelectuais universais, que atravessam tempo e espaço. Não há. Crenças intelectuais são relativas e resultado de um elaborado processo de geração, organização e transmissão e difusão de maneiras de explicar, de entender, de lidar com o entorno natural e social.

NOTAS
[1] Daniel Quinn: Ismael. Um Romance da Condição Humana, trad. Thelma Médici Nóbrega, Editora Fundação Peirópolis, São Paulo, 1998; p.42
[2] Normalidade e exclusão encontram uma das melhores análises na vasta obra de Michel Foucault.
[3] Assim se explicam os processos de exorcizar, nas suas várias formas. A ficção nos oferece exemplos muitas vezes de muito impacto. Um exemplo recente de exorcismo científico nos foi mostrado na novela de Anthony Burgess, A Laranja Mecânica (1962), que em 1971 Stanley Kubrick transformou num filme de grande impacto.
[4] ?Economia do conhecimento? e ?riqueza do saber? tornaram-se clichês. Curioso lembrar que na França revolucionária fundou-se a École Polytéchnique, com forte ênfase nos cursos de matemática, com a finalidade de formar os quadros burocráticos e de gerenciamento para a nova República Francesa.
[5] G.W. Leibniz: Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano, trad. Luiz Batista Baraúna, Nova Cultural, São Paulo, 1999; p.532.