Um outro mundo é possível. Mas, de que maneira? Diante do descalabro econômico provocado pela ânsia devoradora de um capital sem fronteiras e controles, de um arranjo político internacional que gera uma multipolaridade débil e que não produz efeitos concretos sobre a vida concreta das pessoas em diversas partes do globo, perante a manutenção de condições sociais que provocam cada vez mais a desumanização de populações inteiras (desemprego, violência, corrupção, fome) relegadas à exclusão e até mesma à eliminação, o que fazer? Há alguns anos, um conjunto de movimentos sociais, organizações não-governamentais que lutam contra as injustiças (sob qualquer forma que elas se exerçam), as desigualdades, a intolerância, a destruição do meio ambiente e da vida, formularam e implementaram um espaço de discussões que pudesse se contrapor a um outro que se realizava na Europa: o Fórum Social Mundial. Desde então, tem sido o principal ponto de encontro da esquerda mundial e uma tentativa de articular uma quantidade incomensurável de movimentos e organizações no sentido de pensar alternativas à globalização excludente. O FSM seria o espaço da tolerância, da busca de alternativas, de luta contra toda forma de discriminação e exclusão. Em tese. E veremos por que.


Relação FSM-cidade de Belém

Para pensarmos o próprio FSM, devemos olhar, de forma cuidadosa, para a relação deste com a cidade que o recepciona. Em primeiro lugar, vale destacar o fato de que, nesta edição do FSM, difundiu-se na cidade um discurso que tratou aqueles que chegavam como uma horda de bárbaros que apenas trariam destruição. Em conversas informais com alguns moradores de Belém era possível perceber a imagem negativa construída contra os visitantes. Inúmeros habitantes reclamavam do trânsito caótico, dos hábitos de alguns grupos, da sujeira deixada para trás. Reafirmavam isso através de pequenas manifestações de hostilidade, como por exemplo, falando alto na presença de militantes que estivessem em algum coletivo. Apesar disso não ter sido um comportamento generalizado, foi possível perceber o incômodo de muitos (qualquer que fosse a classe social a que pertencesse). Apesar da propaganda oficial do governo do Estado, nem mesmo as supostas melhorias que a cidade receberia foram exploradas. Supostas, pois, de fato, não foram vistas em nenhuma parte da cidade. O que fizeram com os R$ 400 milhões de reais que seriam investidos pelos governos Estadual e Federal na infraestrutura de Belém? Os transportes continuaram insuficientes, o trânsito caótico, não houve investimento em saneamento básico (numa cidade em que isso mal existe). Afora algumas estradas asfaltadas (diga-se de passagem, apenas aquelas bem próximas do grande evento), o que se viu foi um maciço e extensivo policiamento. Isso é importante destacar quando falamos da relação FSM-Belém. Alguns meses antes da realização do Fórum, o governo do Estado, governado pelo PT, e com a colaboração da Força Nacional de Segurança aumentou o cerco não apenas sobre os criminosos (quaisquer que fossem, ligados ao tráfico de drogas ou não), mas principalmente sobre a população moradora das periferias, especialmente aquela que fica próxima às universidades em que ocorreriam as atividades. Terra Firme e Guamá são os dois bairros pobres que suportaram (e ainda suportam) um controle e repressão do aparato de segurança público, tanto estadual quanto federal. O Fórum Social Mundial foi usado, pelo governo do Estado do Pará, como justificativa para a política de segurança pública que conhecemos tão bem em outros estados brasileiros: aquela política que envolve violência, toques de recolher, arbitrariedade e desrespeito. Além de aumentar sensivelmente a quantidade de investidas policiais, cuja justificativa seria proteger os visitantes que então aportavam na cidade, proibiu-se a realização da aparelhagem, festa local muito comum nas periferias e ordenou-se o fechamento dos estabelecimentos comerciais às 22hs. Não apenas isso, mas algumas rádios comunitárias foram impossibilitadas de funcionar, principalmente aquelas que veiculavam críticas às ações governamentais na região. Por fim, o que parecia ser impossível, aconteceu: a população local foi impossibilitada de participar das discussões e atividades realizadas nos espaços reservados para tal. As duas universidades nas quais todo o evento se desenvolveu (UFPA e UFRA), não foram abertas a participação de todos aqueles que gostariam de ouvir ou simplesmente conhecer toda aquela movimentação, todas aquelas pessoas estranhas, novas, diferentes. A possibilidade do contato e da troca foi restringida e controlada. E aqui entramos em mais tópico importante a ser abordado sobre o FSM.


O lado de dentro: universo paralelo, espaço de diálogo burocratizado e isolado

A organização do FSM, Belém-2009, não permitiu a entrada de pessoas que não estivessem portando a credencial do evento. Inúmeros transtornos foram observados, desde a truculência de alguns seguranças (totalmente despreparados para o tipo de evento que encontraram) até a intransigência e arrogância de integrantes da mesma organização. Um destes chegou a informar que, quando questionado sobre o porquê do controle rígido da entrada, a permissão generalizada seria injusta com quem pagou a inscrição (que variava entre R$ 15 e R$ 30). Outra justificativa, talvez a mais sintomática de tudo o que significou este FSM, foi a questão da segurança. Os bárbaros da Terra Firme estavam assaltando e, para garantir que os visitantes e militantes pudessem circular ?livremente? e sem nenhum ?problema?, todo e qualquer controle e restrição na circulação se fazia necessário. Afinal de contas, violência se trata com... violência! Este tipo de acontecimento expressa os limites do próprio FSM. Inacreditável imaginar que, em um espaço no qual a diferença, o respeito, a solidariedade e o diálogo devessem ser considerados os elementos determinantes, o elitismo, a hostilidade, o preconceito e o desrespeito tenham sido a tônica geral. Para observamos isso, basta verificar as dificuldades encontradas na organização das atividades. Muitas simplesmente não ocorreram, outras tiveram seus locais transferidos em cima da hora e em outras os convidados não compareceram. Culparam as próprias organizações e entidades responsáveis. Mas quem é o culpado nessa história? Quem são os responsáveis em casos como estes? Afinal, há responsáveis por alguma coisa? Não apenas em relação às atividades programadas, que muitas vezes eram mal identificadas no informativo destinado para tal, mas as informações sobre os locais aonde aconteceriam os debates ou qualquer outra sobre o próprio Fórum ou a cidade, eram de difícil acesso ou simplesmente não existiam. Os voluntários supostamente treinados e orientados para esta função quase sempre não sabiam (ou sabiam parcialmente) sobre os locais, instalações e as próprias unidades no interior das universidades. Era visível a imensa dificuldade com que davam informações aos estrangeiros, perceptível era a falta de qualquer habilitação em inglês ou espanhol.
Por fim, cabem ainda algumas palavras sobre os próprios participantes e sobre a dinâmica geral do Fórum. Desde a grande marcha de abertura, era possível perceber que boa parte do FSM se transformou num ambiente festivo. Até aí, tudo bem. Faz parte de qualquer grande evento, de qualquer grande manifestação o momento da confraternização, da comemoração. Ação coletiva também se faz com sorriso no rosto. O questionável é quando a festa torna-se o elemento principal e norteador da participação de considerável contingente de pessoas que se dispuseram a sair de suas casas para discutirem um outro mundo possível. Ouvindo alguns participantes, principalmente jovens, circulando pelos locais em que ocorriam as discussões, pelo acampamento da juventude, era perceptível como as atividades principais eram colocadas em segundo plano em troca de uma boa bebida, uma boa festa ou até mesmo um passeio pela cidade de Belém. Questionarão: qual o problema de um grupo se divertir? Qual o problema alguns militantes passearem por Belém? Problema nenhum. Repito: o que não pode (e não deve) acontecer é a supremacia do momento festivo em detrimento do momento político. Vivenciamos um momento histórico em que a política (entendida aqui para além dos espaços institucionais) perde cada vez mais espaço como forma de organização da vida coletiva e que a cada momento se vê deslegitimada por todos os lados. Reproduzir isso, de alguma maneira, num espaço como o FSM, criado para significar justamente o contrário, é jogar no lixo mais uma oportunidade histórica de lutarmos pelas mudanças que tanto almejamos.


Considerações finais

Diante destas considerações, qual o destino do FSM? Que rumo tomar, já que o modelo parece estar desgastado? A esquerda mundial precisa de mais festa ou de mais lutas? Questões como estas precisam ser respondidas por aqueles que formularam e que participaram do Fórum Social Mundial nos últimos anos. Embora seja um espaço de contatos e discussão muito importante, não pode se restringir a isso. É preciso discutir a possibilidade de que ações concretas possam ser não somente pensadas, mas implementadas.