"O meu caso não pode ser analisado isoladamente. Temos que aproveitar esse caso para falar de tudo o que se conquistou em 68. As vezes fica a impressão de que tudo o que foi conquistado foi dado pelos governos. Os governos não nos deram nada de presente, tudo o que se conquistou foi pago com a vida e com a morte. Quando se pensa em 68, logo se associam imagens de guerrillas, terrorismo. A guerrilha foi uma pequena parte de tudo o que aconteceu. O movimento de 68 era um movimento de gente que queria viver, e não morrer. De Chumbo eram os anos deles. Os nossos eram os anos de amor". Cesare Battisti, em entrevista ao Centro de Mídia Independente (2008)
A recente polêmica sobre o refúgio e não-extradição do ativista e romancista Cesare Battisti(CB) geralmente incorre em duas simplificações: supõe-se de imediato que C.B. foi um militante isolado em uma organização extremista que fugia à normalidade italiana; dá-se também como certo que a democracia italiana do período - onde houve uma estranha aproximação da esquerda institucional (Partido Comunista Italiano) e direita (Democracia Cristã) - não cometeu excessos nem agiu de forma arbitrária. Desses simples e equivocados entendimentos conclui-se, então, que Battisti é obviamente culpado pelos crimes que lhe são imputados, que é um criminoso comum e está muito distante da categoria perseguido político.
Buscaremos nesse artigo contestar este entendimento petrificado à luz da disputa política que envolve Cesare Battisti, analisando um aspecto até agora pouco lembrado: C.B. faz parte da geração de 1968, conhecida pelo seu lema "imaginação ao poder".
Mas, mais que um lema, aquele período de agitações sociais e políticas do período tem outras características marcantes, como o de ter questionado todos os projetos de poder autoritário, sejam do bloco capitalista ou soviético. Também atacou os princípios políticos e as práticas da esquerda ortodoxa em todo o mundo, que tinha como principais interlocutores os Partidos Comunistas. Alternativamente a isso, desenvolveu projetos de organização proletária em que o proletariado fosse o principal sujeito de sua revolução, sem a necessidade de orientação de qualquer vanguarda pervertida e pretensa iluminada. Apresentou também as demandas sufocadas da diáspora negra e feministas. Rebelou-se, enfim, contra os valores e instituições da sociedade dita moderna, apontando seus espaços disciplinar dos corpos, corações e mentes.
Essa geração ficou conhecida não só por sua radicalidade, mas também pela dura repressão que enfrentou. E foi reprimida tanto pela direita como pela esquerda (institucional). Na Itália, em especial, essas lutas radicais tem seu início em 1968, mas desenvolvem-se plenamente na década de 70, na conhecida então esquerda extra-parlamentar. Esta lutava fora da institucionalidade tendo como bandeiras - e conquistas - principais a luta anticarcerária e a antipsiquiatrica, pelo direito ao direito ao divórcio e aborto, o feminismo e libertação sexual. Questionavam também resquícios do fascismo presentes naquele país, como as máfias atrofiadas no poder central, a ideologia do trabalho compulsório em sacrifício etc. E, por fim, questionaram o chamado "compromisso histórico", pacto em que PCI e Democracia Cristã partilharam o poder, sem deixar qualquer alternativa de ruptura com a sociedade existente. Mais que isso, essa aliança usou a chamada "estratégia de tensão" contra seus opositores radicais, que consistia de realizar ataques paramilitares às organizações. Tratavam-se de atentados, prisões e torturas aos grupos dissidentes.
E quem eram os dissidentes? Haviam Squatt's (centros culturais autogestionados), rádios livres, fanzines, coletivos de mídia, mobilizações comunitárias, piquetes de fábricas. Neste amplo movimento, Cesare Battisti participava da Frente Ampla Autonomia Operária (mesma frente do filósofo Antonio Negri, ainda que em correntes diferentes). Ele participou por alguns anos dos PAC (Proletários Armados ao Comunismo), uma das correntes do movimento autonomista. Mas afastou-se deste grupo logo após a morte de Aldo Moro, reivindicada pelas Brigadas Vermelhas (outro grupo extra-parlamentar, de orientação marxista-leninista), pois percebeu que o caminho da luta armada adotada pelas organizações do período era um equívoco.
A partir daí, Cesare passa por todos os estágios da repressão política àquela movimentação italiana: preso com acusações políticas (formação de quadrilha e associação subversiva), é libertado por membros do seu antigo grupo, para organizar outras ações armadas. Após negar-se a cumpri-las, rompe com a organização e foge do país. Na França, organiza-se junto a outros perseguidos políticos de seus países; no México, inicia sua atividade de romancista policial, com obras que denunciam o período italiano; na França novamente luta pela defesa da Doutrina Mitterrand, que recebia foragidos políticos de outros países que renunciassem à luta armada - como C.B. já havia feito anos antes.
Na Itália, porém, a perseguição ao movimento chegou a níveis absurdos: foram criadas leis de exceção para perseguir e dizimar as organizações extra-parlamentares; ativistas foram presos e torturados até delatarem seus companheiros/as; outras/os tornaram-se "Arrependidos/as", figuras que vem a público denunciar sua própria organização e fazer propaganda ideológica contra-revolucionária, ganhando em troca redução de suas penas. O judiciário também participou deste processo, realizando julgamentos arbitrários, à revelia e prendendo centenas de pessoas. O objetivo desta ação estatal tão grande era apagar da história as lutas do período anterior.
Cesare, longe da Itália, foi vítima desse movimento conservador: foi acusado de ter cometido quatro crimes em nome dos PAC (sendo que já havia saído da organização quando da realização de pelo menos três deles) pelo ex-companheiro Pietro Mutti, liderança dos PAC e famoso arrependido italiano. Das outras cinco pessoas que também o acusaram, três afirmaram depois ter sido vítimas de tortura pra fazer delações. Além das delações infundadas, Cesare foi julgado à revelia, sendo condenado à prisão perpétua. E como em suas atividades de romance fazia denúncias dos "anos de chumbo" da Itália, transformou-se em um potencial e perigoso inimigo, pois apresentava uma história diferente das versões institucionais dadas pela esquerda e direita.
Battisti pôde manter suas atividades de escritor na França até que uma nova onda reacionária chegasse ao poder na Europa. Os governos declaradamente direitistas de Silvio Berlusconi e Nikolas Sarkozy negociaram - em troca de um trem bala - a extradição de Cesare à itália. E aí ele fugiu para o Brasil. É nesse contexto complicado que a disputa de Cesare está envolvida. Não se trata unicamente de sua pessoa, mas sim da luta para encerrar as celeumas abertas pelos questionamentos da "Geração de 68". Então além de um perseguido político Cesare representa uma geração perseguida, em uma disputa histórica por seu legado.
Em um artigo publicado no Centro de Mídia Independente no princípio de 2008, intitulado "Unidos/as pelo destino" escrevi algumas frases que ainda me parecem atuais, e gostaria de finalizar este texto com elas: "Poderíamos entender essa situação como uma disputa anacrônica pertencente a grupos que até hoje acertam contas sobre um passado distante. Mas, ao que parece, é justamente na disputa destas imagens sobre o passado que está colocado um dos principais debates sobre o presente e futuro: se os/as compas dos anos de chumbo eda geração de 68 forem categorizadas/os como terroristas sanguinários/as, nossa geração de lutas inscrever-se-á no mesmo caminho, e receberá o mesmo tratamento. Fica sugerido, em oposição, que o caminho de recolocar na história presente o significado destas lutas e suas conquistas abrirá caminhos de avanços às gerações passadas e às nossas. Seja qual for o fim desta história, só a união e solidariedade nos restam. Se não por nós, pelos nossos destinos."
Paíque Duques Lima e Gustavo Nestor Marques, do comitê pela libertação de Cesare Battisti
