DRMb: Uma proposta de padrão para o Sistema Brasileiro de Rádio Digital

O meio rádio tem uma função central e extremamente relevante na comunicação local, regional e fronteiriça no Brasil e na América do Sul.

Entendida como a continuação de um processo de constante mudança de paradigma para a comunicação, a evolução consciente do rádio (operando há 90 anos e historicamente marcando sua enorme relevância social) permitirá um novo panorama para a troca de informações independente e autônoma, ampla e potente, corroborando com o direito humano fundamental de liberdade de expressão e comunicação e também com o desenvolvimento socioeconómico do Brasil e da América do Sul. Esta quebra de paradigma que se apresenta atualmente no processo de migração do rádio analógico para o sistema digital precisa ser pensada no contexto da realidade geopolítica, econômica e tecnológica em toda a sociedade na qual este desafio se apresenta.

Queremos demonstrar como o padrão DRM possui as qualidades necessárias para o desenvolvimento aberto e adequado às necessidades brasileiras e passível de intervenções e tecnologias desenvolvidas no país, podendo potencializar o protagonismo brasileiro no desenvolvimento de produtos e soluções para um rádio digital mundial em processo de adoção em várias nações em diferentes partes do globo.

A tecnologia do padrão DRM, por ser aberta e internacionalmente reconhecida, por ser independente de empresas detentoras de tecnologias proprietárias (como é o caso do padrão HD Radio), por ser adaptável às necessidades nacionais e por proporcionar a otimização do espectro eletromagnético, é a melhor opção para o Brasil. Com a possibilidade de pesquisas nacionais na área e a inerente transferência de tecnologia que o sistema oferece, as possibilidades de criação de um sistema brasileiro fundado sobre o Digital Radio Mondiale - que possui implementações completas em software livre - é não só possível como também desejável.

Consideramos fundamental a adoção de um padrão de rádio digital que funcione mundialmente e que permita abertura para a entrada de novos atores nas dinâmicas da comunicação: o DRM é o único que apresenta essa proposta.

No entanto alterações compatíveis ao serviço de difusão de áudio nesse sistema são possíveis e necessárias para o Brasil e América do Sul, considerando a demanda existente por pesquisas e desenvolvimentos nacionais para o rádio digital.

Na concepção da TV Digital brasileira, baseada no padrão japonês, em função da necessidade de adaptações à realidade nacional, foi incorporada uma plataforma de apresentação e execução de software desenvolvida para levar interatividade à TV: o Ginga. Essa modificação do padrão japonês é tida como a maior contribuição brasileira ao sistema de TV Digital, permitindo que serviços públicos e privados estejam disponíveis a todos os usuários da TV aberta, não só no Brasil mas também nos países da América do Sul que adotaram o padrão brasileiro.

Consideramos portanto que a inclusão do Ginga ao rádio digital brasileiro é o caminho natural no processo de integração dos sistemas de radiodifusão do Brasil: rádio e TV.

O perfil viável do Ginga para a incorporação ao DRM segue a Recomendação ITU-T H.761 para IPTV, sendo também adotado para receptores portáteis (ABNT/NBR 15606-5) no sistema brasileiro de TV digital. Chamado de Ginga-NCL, o sistema foi concebido e desenvolvido inteiramente no Brasil sob coordenação do professor Luiz Fernando G. Soares da PUC-Rio. O Ginga-NCL é livre de royalties e possui implementação de referência gratuita e de código aberto. Ginga é também marca registrada da PUC-Rio, que é cedida sem nenhum custo a receptores com o software.

A incorporação ao Digital Radio Mondiale permite que receptores portáteis de TV digital one-seg compartilhem exatamente o mesmo software para o rádio digital, e sendo o codec de áudio do DRM o mesmo da TV Digital - o AAC, teremos sistemas de difusão interoperáveis que compartilham da mesma tecnologia, barateando o custo dos receptores e da produção de conteúdo interativo para a radio e teledifusão brasileira, algo que o padrão HD Radio não possibilita.

A proposta do DRM-Brasil para o padrão do Sistema Brasileiro de Rádio Digital é portanto a incorporação do Ginga-NCL (que consiste do uso das linguagens NCL e Lua como linguagens do middleware do rádio digital) ao DRM. Como consequência dessa alteração no DRM, a utilização da tecnologia que possui royalties desenvolvida pela alemã Fraunhofer Institute conhecida como "Journaline" será eliminada, barateando os custos e fomentando tecnologia nacional. Propomos portanto, um padrão misto, que passaria a se chamar DRMb.

Assina essa carta o DRM-Brasil.